sexta-feira, maio 15, 2026
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Um socialista em Nova York (2) – Jornal da USP


Um democrata socialista na batuta de Nova York é a prova cabal de que desejar o que nos vendem como impossível é bastante realista

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Vivemos um período curioso. Centenas, milhares de hashtags se sucedem nas redes,  mas não se vê qualquer resultado concreto. Muita # e pouco resultado. Uma enxurrada de #causas e o mundo não se move um milímetro. Melhor, se move dois para cá, dois para lá, e a sensação é a de que não saímos do lugar. Tarifaços? Caem e sobem a cada dia, dependendo do humor vigente. Ativistas levando víveres para crianças palestinas submetidas à política letal da fome, arma tão eficaz quanto os bombardeios aéreos contra a população civil? Barcos sequestrados e ativistas presos e deportados, apesar dos muitos abaixo-assinados e protestos pelo mundo. Mudar as regras do dia para noite e não mudar nada dá na mesma. No mesmo desânimo, frustração, perplexidade e a impressão de que o mundo vai ladeira abaixo, despencando como se obedecesse a uma lei natural, tal qual a maçã de Newton. O economista Paul Krugman escreveu recentemente que a festinha em Mar- a- Lago, de ostentação e vulgaridade ímpares, foi um genuíno manifesto de crueldade, isto é, foi calculada exatamente para fazer bullying com os 99% da população precária e exibir o absoluto desprezo de Trump e da Maga à população empobrecida (The big smirk).

É por isso que a eleição de Zohran Mamdani  para prefeito de Nova York é um ponto de inflexão que vai muito além da vitória local de um hindu jovem e muçulmano , com doações minguadas de colaboradores. É a prova de que o repúdio à imoralidade do establishment pode transbordar a esfera das denúncias e virar fato político consistente. Que nem sempre o 1% ganha e leva. Que dinheiro não pode tudo. Apesar da enxurrada de doações bilionárias a seus adversários, a zombaria de boa parte da mídia, a islamofobia e a hostilidade da liderança de seu próprio partido (o Democrata), Mamdani triunfou. Sua vitória mostra que a fórmula riqueza e influência não garante, necessariamente, poder. Sua plataforma prevê moradias publicas, proteções de aluguel  aos inquilinos, creches universais, ônibus urbanos gratuitos e mercearias públicas a preços acessíveis (para mais detalhes, vejam o podcast desta coluna que foi ao ar em 4/07 deste ano, “Um socialista em Nova York”).

No discurso de vitória, Mamdani mandou um recado para Trump: “Aumente o volume!”. Aliás, um discurso que marcará história, e está para hoje como o discurso de Martin Luther King (I have a dream) esteve na luta contra o apartheid. Numa passagem, ele comenta que, em geral, se faz poesia durante a campanha, mas se cai na prosa mais rasa na hora de governar. “Que nossa prosa rime”, respondeu antecipadamente aos cínicos. Um discurso que exala franqueza e alegria (o paralelo aqui é com o plebiscito chileno de 88 e a campanha do NO contra Pinochet, cujo lema foi “La alegria ya viene”). Óbvio que não vai ser fácil. Mas um democrata socialista na batuta de Nova York é a prova cabal de que desejar o que nos vendem como impossível é bastante realista.


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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Zohran Mamdani



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