Programa especial destaca a música do cantor e compositor mineiro, que morreu no dia 2 passado; leia também artigo sobre o autor de “Trem Azul”

A vida e a obra de Lô Borges são o destaque do programa especial que a Rádio USP transmitiu no dia 3 passado, por ocasião da morte do cantor e compositor mineiro, um dos fundadores do Clube da Esquina – movimento surgido nos anos 60, em Belo Horizonte (MG), que renovou a música popular brasileira -, ocorrida no dia anterior. Abaixo, ouça a íntegra do programa e leia artigo sobre Lô Borges de autoria do professor Pedro Varoni, pós-doutor em Informação e Cultura pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.
Ouça no link abaixo o programa especial sobre Lô Borges, transmitido pela Rádio USP em 3 de novembro de 2025. A produção e apresentação são do radialista Cido Tavares.
Pedro Varoni
Eu queria encontrar uma linguagem que me fizesse ir além das duas frases que consegui escrever na manhã de segunda feira, 3 de novembro de 2025, quando soube da morte de Lô Borges. Obrigado por tanto, siga na luz das canções; foi o máximo que alcancei, na publicação de um post nas redes. Calhou de estar em BH, no dia chuvoso e triste que começava. Atravessei as horas com o pensamento em Lô.
Curiosa a forma como a morte de artistas que admiramos parece refinar a percepção da grandeza da obra. Como o funcionário do banco do poema de Murilo Mendes, passei o dia a pensar em canções, enquanto a chuva caía. No clima introspectivo que o dia impunha, encontrei velhos amigos para um café e segui a tempo da homenagem a Lô Borges, no encontro das ruas Divinópolis e Paraisópolis. Enquanto o Uber atravessa o viaduto que liga o centro a Floresta, a caminho de Santa Tereza, lembrei de meu único encontro pessoal com Lô Borges. Estudava Jornalismo e trabalhava numa pesquisa de iniciação científica sobre o Clube da Esquina. Por intermédio de minha orientadora, consegui o contato e a entrevista com Lô.
Teria sido num daqueles prédios do caminho. Gravei a entrevista numa fita, que se perdeu e, hoje, revendo a monografia, entendo melhor a lição de um antigo jornalista com quem trabalhei. Os repórteres jovens, dizia ele, padecem do problema de serem guiados pelas ideias que trazem na cabeça e não veem e ouvem o que está na cara. Podia ter ouvido melhor Lô, ele estava aberto. Em toda a monografia encontrei um único trecho em que Lô falava da amizade com Beto Guedes e do amor comum pelos Beatles.
“A gente viu aquele primeiro filme deles: Os Reis do Iê, Iê, Iê; aquela coisa de beatlemania de atuar no palco, uma coisa de sentir neles um pique que me despertava para a coisa de ser artista. Eu apliquei o Beto Guedes nos Beatles. Aquele cara que chegou de Montes Claros e só tocava regional, só música do pai dele. Ele teve uma resistência muito grande e depois virou o maior beatlemaníaco.”
Era maio de 1989 e, em BH, soprava a brisa de outono, um dos temas de Lô. Na noite chuvosa de novembro de 2025, chego à esquina de Santa Teresa quando a inconfundível guitarra de Toninho Horta toca o Trem Azul. Todos cantam e celebram, risos e choros, como disse alguém ao microfone.
Encontro Mário Wamser, um violonista talentoso que o algoritmo me apresentou, com seu repertório do Clube da Esquina. Arrisco uma conversa, digo, com sinceridade, que há uma continuidade do violão de Lô no seu som.
Falo de Cacá Negretti, um amigo de Varginha, que também é capaz de tocar as harmonias tortas do Clube da Esquina como ninguém. Lô, felizmente, criou escola.
O que celebramos na despedida de Lô? A beleza trágica das canções da juventude que se tornam clássicos populares, enquanto o tempo vai fazendo o seu trabalho sobre as vidas de nossos ídolos? Na véspera da morte de Lô, fiquei algumas horas assistindo à série Milton, Intimidade e Poesia, dirigida por Cleisson Vidal e Leonardo Carvalhosa. O tema é uma turnê de Milton nos Estados Unidos, por volta de 2018 ou 2017, e Bituca se mostra mais falante do que o usual. A série é sensível, no equilíbrio entre os silêncios cheios de sentido, os gestos e o prazer de perceber Bituca à vontade com suas questões.
Hoje, sabemos, Milton se recolhe a outra intimidade ainda mais profunda. Sobra a gratidão pelas canções, e não é pouca coisa. Ali em Santa Tereza, na noite do dia 3 de novembro, tinha moçada, mas também muitos daqueles que, em maio de 1989, eram jovens cheios de vitalidade, como o Lô que me abriu sua casa para falar do Clube da Esquina. As canções devolviam a brisa da juventude, como um devir deleuziano, tema que rondou a conversa sobre o violão de Lô com Mário Wamser. Entrar no coro do Trem Azul, Paisagem da Janela, Será Que Isso Quer Dizer Amor, a plenos pulmões, era uma catarse, mas também valia a sensação de movimentar uma peça no jogo perdido contra a morte.
Muito se tem dito sobre a originalidade, beleza, talento dos artistas do Clube da Esquina e é bom que o Brasil – e o mundo – voltem seus olhos para todos os aspectos enaltecidos: a voz de Milton, as harmonias, a importância de Lô com seu sopro de juventude na dicção de uma mineiridade moderna, Jules e Jim, Beatles e barroco. A despedida que nos faz olhar com outros olhos para a obra.
Isso não é tudo. Nas reflexões silenciosas dos últimos dias, tateando a linguagem que chegue perto do sentimento, penso em como a experiência das canções de Lô Borges (e de seus parceiros do Clube) constituiu para muitos de minha geração uma ética.
No interior de Minas, onde nasci e cresci, foi bom descobrir que existia um tipo de música ao mesmo tempo tão próxima e tão diferente. Esse som penetra nas sensibilidades, embalado por versos que falam de amor, amizade, brincando com palavras simples, boas de cantar. Alguma coisa que a gente se esqueceu de dizer e que o vento vem às vezes nos lembrar. Uma viagem de ventania.
Crescemos assim, entre a paisagem, sabores, saberes. A vitrola soprava a afirmação do comum mais palpável (da janela do quarto de dormir divisávamos a igreja) e ainda nos lembrava que é bom gostar de dançar, do vestido cor de maravilha, do sonho real.
Uma vez, nos anos 2000, Lô se apresentou na praça da cidade. Já éramos maduros, esperamos tantos anos por esse momento. Na época descrevi, num blog que mantinha (cujo arquivo, assim como a gravação da entrevista com Lô naquele 1989, eu perdi), a forma como um afeto percorreu a plateia, um sentimento de amor pelo que na vida é valioso.
O que se deu ali era a percepção dessa ética, não tão fácil de ser descrita em palavras, é um sentimento de si e do outro, um amor ao lugar, “contente com minha terra, crescido de coração”, como escreveu Guimarães Rosa.
Com a morte de Lô percebo, afinal, tudo o que busco no trabalho, nas canções em que me aventurei a compor, nas interações cotidianas, deriva dessa ética. Ela desconfia das palavras (e lê os silêncios). Não é a ordem pragmática do sujeito que nasce, vive, luta e morre. Mas uma substância intangível, cuja matéria é a poesia que se manifesta no canto, nas harmonias, nos gestos, olhares, na vida que as músicas iluminam.
Na longa viagem de carro na volta de Belo Horizonte, com sol e chuva, as canções de Lô tocavam sob o silêncio da estrada.
Lembrar de tudo o que queríamos ser é poder ser, ainda que no tempo curto de uma noite de celebração à obra de um grande artista brasileiro.
Pedro Varoni é professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), pós-doutor em Informação e Cultura pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e integrante da Comissão de Divulgação Científica do projeto Cherenkov Telescope Array, coordenado pelo professor Luiz Vitor de Souza Filho, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.



