Nos últimos anos, os esforços para caracterizar a USP como uma universidade de excelência e de padrão internacional, com produção científica na fronteira do conhecimento e em busca de maior interação com o setor tecnológico, vêm sendo contrastados com proposições, também válidas, sobre a necessidade de enfrentamento de problemas mais prementes da sociedade. Muitas vezes, debates acalorados geram equívocos, como a suposição de que a inovação e a internacionalização estão associadas a uma eventual perda de autonomia e submissão a interesses alheios à instituição. Essas posições antagônicas são compreensíveis e fazem parte do nosso dia a dia, mas o vetor da discussão talvez deva ser alterado.
As transformações da sociedade e, também, das instituições de ensino superior, ocorrem a uma velocidade crescente e corremos o risco de ficar à margem deste processo. A missão da USP tem sido cumprida de forma adequada, mas em um mundo em contínua mudança, seria interessante pensarmos em ideias disruptivas que pudessem tornar a Universidade ainda mais relevante, contribuindo para um retorno mais efetivo do investimento público. No Brasil, por conta da autonomia e reputação, a USP é a instituição com condições de promover alterações profundas nos seus projetos administrativos, acadêmicos e institucionais. Não se trata de pequenos ajustes, mas de reformas profundas para evitar uma eventual, mas possível, obsolescência, especialmente ao se fazer uma comparação com as congêneres do exterior.
Não se espera que as mudanças ocorram em um curto espaço de tempo, mas elas precisam, pelo menos, ser colocadas em pauta agora para que a Universidade possa assumir riscos conscientes e calculados em um futuro próximo, independentemente de restrições legais e administrativas a serem debatidas nos âmbitos apropriados. A identidade de uma instituição universitária como a USP poderia ser modernizada com base na intervenção em alguns setores.
Ensino. A massificação do acesso ao ensino superior trouxe um problema para o qual tem sido dada pouca relevância, sobretudo em um momento em que as políticas de ação afirmativa recebem maior destaque. Na universidade contemporânea, o corpo discente é mais diversificado e incorporam-se alunos com diferentes níveis de capacitação escolar e com diferentes expectativas e interesses. O ensino universitário de qualidade depende, agora, de elementos pedagógicos mais atraentes e motivacionais, devendo-se dar atenção crescente ao uso da inteligência artificial no processo de aprendizagem.
Afora estas novas problemáticas, a USP não deveria repensar radicalmente seu modelo de graduação, hoje pautado em modelos mais restritos e departamentais, com pouca interação entre as diferentes áreas do conhecimento? Muitos dos cursos foram desenhados há décadas e sob a lógica do ensino, enquanto em uma universidade de pesquisa a proposta deveria ser diferente.
Atualmente, existe uma hierarquia que controla a concessão de diplomas e a influência dos conselhos de classe não pode ser negligenciada. Numa fase da vida em que os alunos devem fazer escolhas conscientes e manter uma postura de ousadia e enfrentamento aos riscos, as matrizes curriculares herméticas transmitem uma mensagem oposta: a de que não possuem capacidade intelectual para traçar seus destinos.
Estamos interessados em propiciar aos alunos uma formação inicial básica para posterior acesso aos cursos mais específicos e profissionalizantes, como nas universidades americanas? Nelas, os alunos de graduação geralmente cursam inicialmente disciplinas de áreas gerais, como ciências, artes e história, para obter uma base ampla antes de se especializarem. Teremos a coragem de extinguir ou remodelar cursos com baixa procura e que não oferecem perspectivas acadêmicas e profissionais para os estudantes? Temos algo a aprender com o curso de Ciências Moleculares?
O concurso para o ingresso na carreira docente na USP foi modernizado recentemente, mas o acesso à graduação continua fundamentado na aferição de conhecimentos. É possível selecionar candidatos mais vocacionados e capacitados para interagir em um ambiente de pesquisa, independentemente do estrato social, com habilidades associadas ao pensamento crítico e à resolução de problemas? Seria interessante implantar e consolidar uma efetiva integração curricular dos cursos de graduação e pós‐graduação? Como fomentar a internacionalização na graduação e na pós-graduação se muitos alunos possuem dificuldades com a língua inglesa?
Relação com a sociedade. A cultura e a extensão constituem o terceiro alicerce de uma universidade pública, mas a simples divulgação de conhecimentos e prestação de serviços via atendimento de demandas configuram-se como um modelo meramente assistencialista, em desacordo com a missão de uma instituição que se fundamenta no axioma do conhecimento. Não por outra razão, alguns autores definem o relacionamento da universidade com a sociedade como a Terceira Missão, aquela associada à percepção da sociedade sobre a universidade e de como o conhecimento produzido pode ser extrovertido sem que ela se torne utilitária.
A USP sempre se beneficiou da riqueza de iniciativas individuais dos docentes para divulgar seus conhecimentos. Entretanto, demandas da sociedade exigem também ações coordenadas, e não somente ações esporádicas, que são subvalorizadas e aquém do potencial da USP. A Universidade precisa desenvolver projetos estruturantes para estabelecer pontes mais robustas com a sociedade em temas complexos como sustentabilidade, saúde, segurança, habitação, transporte, clima, envelhecimento, alimentação, energia e direitos humanos.
Estamos prontos para assumir este pacto com a sociedade e seus diversos segmentos e novos atores (políticos, imprensa, meio empresarial, ONGs, veículos de comunicação e a opinião pública em geral)? A USP poderia interagir de forma mais concreta com as escolas públicas, propondo projetos robustos de melhoria com a participação de docentes de todas as áreas, e não somente aqueles mais vinculados às licenciaturas?
Pesquisa e inovação. Informações sobre a natureza de um fenômeno consistem em etapa essencial para a sua compreensão. Nesse processo, pesquisas em diferentes áreas são requeridas e estas dependem do acesso a informações produzidas em distintas instituições e com competências heterogêneas. Assim, a produção de conhecimentos pioneiros e inovadores requer cada vez mais o trabalho em redes associativas e a USP deveria se engajar para induzir projetos com estas características.
Adicionalmente, existe no Brasil uma visão linear da ciência, em que a ciência básica, de domínio das universidades, seria sucedida pela ciência aplicada, de propriedade das empresas e dos governos. Em diversos países esta visão não se aplica, e as diferentes modalidades de conhecimento transitam paralelamente em distintos contextos institucionais, privilegiando arranjos voltados à interdisciplinaridade e a uma concepção não linear de produção de novos saberes.
A ciência de maior impacto prático requer, necessariamente, o estabelecimento de parcerias com empresas públicas ou privadas, como ocorre nos Estados Unidos, em que a forte interação das universidades com agências governamentais e o setor privado permitiu o surgimento de grandes empresas, como as do Silicon Valley. Portanto, a utilização racional do conhecimento científico, tecnológico e cultural produzido na USP para o desenvolvimento socioeconômico da nação deveria ser mais fortemente estimulada.
Todavia, como justificar para os setores mais conservadores da Universidade que a USP, fiel à sua tradição de pioneirismo e de vanguarda científica do País, precisa aceitar o desafio de tornar ainda mais robusto seu sistema de competências e valorizar as iniciativas voltadas à inovação? Em universidades de excelência do exterior, a formação em nível de pós-graduação não recebe atenção especial, e nos sistemas estruturados de pesquisa, a presença de pós-doutorandos é essencial.
Deveríamos, desta forma, nos preocupar mais enfaticamente com os pós-doutorandos, ampliando fortemente a presença desses atores e seu papel na instituição? Seria possível a criação de polos de interação acadêmica e científica em diferentes estados brasileiros e em países selecionados, visando ao estabelecimento de cooperações científicas e captação de alunos talentosos para os programas de ensino de graduação e pós-graduação?
Gestão e governança. É notória a necessidade de transformar a administração central para que ela se torne moderna, ágil, eficiente, captadora de recursos de diversas fontes e disposta a buscar talentos em todos os níveis em um ambiente nacional e internacional. Se mantivermos a Universidade em ritmo burocrático, restrito, seguindo normas convencionais, as chances de ela se destacar externamente serão cada vez menores. Para isso, é preciso reinventar a Universidade como um espaço institucional de elevada capilaridade e esse processo de transformação possui um forte aliado: a autonomia outorgada pelo Estado.
Mais do que a profissionalização da gestão, a universidade contemporânea precisa desenvolver canais estáveis e independentes de interlocução com a sociedade, os quais devem ser suficientemente vigorosos para que as mensagens oriundas do meio externo sejam ouvidas e desafiem a instituição a vencer o seu passado, rompendo com o imobilismo conservador. Se quer ser um instrumento de progresso social, a universidade deve dar mais atenção ao mundo que se situa fora de seus muros e não pode ignorar a possibilidade de revisões no planejamento acadêmico induzidas por estímulos externos.
Que novo tipo de governança poderia ser criado para que redes diversificadas e altamente capilarizadas atuassem na contínua inovação dos processos de ensino, pesquisa e interação com a população? Por suas características rígidas e altamente hierarquizadas, o modelo atual não responde a essas demandas.
Carreira dos servidores docentes e não docentes. No atual modelo da carreira docente, quase todos os professores são contratados em regime de dedicação integral à docência e pesquisa. Em uma eventual reestruturação da Universidade, seria viável um novo modelo com diferentes carreiras, vários níveis de dedicação e remuneração para professores pesquisadores e professores que se dedicam exclusivamente à docência. Estes últimos poderiam, por exemplo, combinar o ensino com a prática profissional, trazendo uma experiência que poderia ser muito positiva para os estudantes.
Uma completa reformulação administrativa, menos restrita a aspectos burocráticos e legais e associada ao uso efetivo da inteligência artificial, poderia liberar os técnicos administrativos para o exercício de funções mais alinhadas às suas potencialidades e permitir que os técnicos vinculados à pesquisa pudessem colaborar mais intensamente nas atividades a eles destinadas. Em ambos os casos, a USP precisaria repensar sua estrutura administrativa para que cada funcionário – docente ou não docente – pudesse executar suas atividades na plenitude de sua capacidade, sendo compensado financeiramente de modo proporcional à importância de sua atuação.
Expansão do ensino superior. A USP é uma universidade de pesquisa e aspira à condição de universidade de classe mundial. Entretanto, ela e suas congêneres paulistas têm se ocupado de incluir parcelas cada vez maiores dos alunos formados no ensino médio, mantendo o nível de excelência dos seus egressos. Esta tarefa é inexequível, dadas as dimensões da população paulista e as deficiências na formação escolar dos ingressantes nas universidades. Além disso, a mensagem de que o ensino superior se restringe à graduação em uma universidade de pesquisa, cujos custos de operação são elevadíssimos, é falsa.
As universidades estaduais paulistas não poderiam formular novas políticas para o ensino superior como, por exemplo, induzir a uma forte diversificação aproveitando a capilaridade e competência das Fatecs para introduzir cursos de nível tecnológico de dois anos, a exemplo dos Community College americanos? Assim, a ideia de que o ensino superior é sinônimo de diploma de universidade de pesquisa seria revisitada.
Esses novos cursos mais curtos concederiam diplomas e, além de proporcionar uma formação terminal, poderiam ser uma porta de entrada para alunos vocacionados visando à formação mais ampla de nível superior nas universidades públicas paulistas. A ampliação do número de vagas nas Fatecs minimizaria a pressão para o ingresso dos concluintes do ensino médio nas universidades públicas e o custo da expansão seria proporcionalmente mais baixo, pois muitos dos docentes das Fatecs não possuem doutoramento e não trabalham em regime de tempo integral com dedicação exclusiva.
Em resumo, usando seu prestígio, a USP não poderia induzir à criação de políticas de Estado para valorizar e colaborar com os cursos tecnológicos, ajudando-os a se firmarem como instituições de importância fundamental na formação de material humano qualificado para o desenvolvimento tecnológico do País? Com uma eventual reestruturação do ensino superior paulista, uma possível consequência seria a reformulação completa da graduação na USP nos moldes sugeridos anteriormente.
Busca de recursos. Nos últimos anos, a USP tem despertado menor interesse da sociedade, que a simboliza apenas como instituição de formação profissional, mas não como um centro de produção de pesquisas relevantes e bastião da independência nacional. Algumas universidades particulares brasileiras e instituições de destaque dos países desenvolvidos gozam de grande prestígio, o que leva muitos estudantes brasileiros a vê-las como alternativa para a formação em nível superior e na pós-graduação.
Essas constatações, aliadas à falta de cultura de doações e de identidade institucional, podem justificar a pouca adesão de fundações privadas e detentores de grandes fortunas a processos de transferência de recursos para a Universidade, situação distinta daquela observada em instituições estrangeiras de renome. O aporte do Estado, via cota-parte dos recursos oriundos da tributação dos impostos, deve certamente constituir-se na fonte principal dos recursos da USP, mas aportes diversificados são importantes para a saúde financeira da instituição e manutenção de programas importantes.
Que ações devem ser desenvolvidas para incrementar e estruturar o recebimento de apoio de pessoas físicas ou jurídicas, tais como empresas ou entidades diversas? Como resgatar a identidade da USP para seus ex-alunos e defensores, de modo que eles acreditem que o apoio financeiro à instituição terá consequências positivas para a população no futuro?
A universidade contemporânea possui papel preponderante nas dinâmicas que reconfiguram a sociedade. Assim, a capacidade de mudança e flexibilidade da instituição são os componentes vitais para que ela responda de forma concreta aos anseios da população. A mudança climática, a perda da biodiversidade, o efeito de microplásticos, a energia sustentável, a inteligência artificial e a pandemia são exemplos emblemáticos de problemas aos quais a universidade tem sido convocada a manifestar-se.
Em vez de apenas persistir no argumento de que a formação de recursos humanos qualificados, a criação de conhecimento de bom nível e a busca por maior justiça social já satisfazem nossos anseios, outra opção consiste na busca de um diálogo mais contundente com o poder Legislativo, pautado em nossa autonomia e reputação, para buscar soluções inteligentes que tornem a USP um espaço ainda mais diferenciado para a formulação e implementação de novos modelos de governança.
Atualmente, a Universidade deve seguir as normas das repartições públicas, a despeito da brutal diferença no modelo de atuação e objetivos. Esforços para que o Legislativo compreenda esta diversidade de papéis, sem haver privilégios ilegais perante a administração pública, exigem forte atuação política. Somente com alguma liberdade administrativa a USP poderia ser mais competitiva em relação às universidades estrangeiras e formular novas estratégias para a proposição de políticas institucionais inovadoras.
As mudanças em praticamente todos os setores da atividade humana estão se acentuando. Cada setor responde de modo diferente, impulsionado por sua capacidade de reação a fatores externos e pela disposição interna de reagir, vencendo suas próprias barreiras, identificando vantagens competitivas e desenvolvendo seus pontos fortes.
O impulso inovador da USP e sua capacidade de propor novas trajetórias de intervenção na realidade são a força motriz desta instituição quase centenária. Ela agora se encontra diante de um forte dilema: assumir a liderança das reformas profundas necessárias para se inserir na vanguarda da intelectualidade global ou correr o risco de passar de um baluarte da intelectualidade nacional para uma corporação burocrática e de menor expressão no cenário externo.
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