De Ayrton Senna a Neymar, Marco Bettine explica como a formação de um ídolo se desenvolve em diferentes modalidades no Brasil

Em entrevista recente, Gabriel Bortoleto diz que “está na jornada para se tornar um ídolo”. A frase revela um sentimento que respira o esporte brasileiro, muitas vezes construído e motivado em cima de histórias cativantes e personagens que se tornam heróis. No caso da Fórmula 1, três grandes pilotos ajudaram a criar essa narrativa: Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna. De acordo com Marco Bettine, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP), Fittipaldi é considerado um “abre-alas” da relação do brasileiro com a categoria; Piquet é considerado uma celebridade — pessoa importante, mas que vive para si; Senna, no entanto, é o que mais se aproxima do símbolo de herói, principalmente após a sua morte “em serviço à pátria”.
Na opinião do especialista, Rubens Barrichello e Felipe Massa não conseguiram chegar a esse posto mais alto e foram considerados sem a “gana e garra brasileira”, mesmo sendo excelentes. “O Rubinho já pegou um segundo lugar, e sempre foi ridicularizado. Todo mundo esquece”, complementa. Sem esse “personagem”, Bettine explica que ocorreu uma perda de identidade com o esporte, além de um desinteresse, porque o resultado não seria inesperado — no imaginário popular, nenhum brasileiro iria vencer ou disputar o primeiro lugar. Uma consequência disso foi a perda, por alguns anos, da sede em Interlagos na Fórmula 1, o Grande Prêmio do Brasil. “Nos meios de comunicação de massa, construir esses mitos e heróis é uma forma muito importante de aumentar o gosto das pessoas pela determinada modalidade.”

Esportes coletivos
Diferente de esportes individuais, os de equipe precisam de um grupo que se “carregue” junto, mesmo que algum jogador se destaque. O melhor jogador, no entanto, representa esse time e o esforço coletivo: “O arquétipo de herói dessas modalidades é baseado no esforço e na filosofia anglo-saxônica. É aquele que trabalha, que vai todo dia treinar. É um pouco da ética protestante e do espírito do capitalismo weberiano”.
Mas, no futebol, isso muda. Segundo Bettine, o arquétipo do futebolista brasileiro é do Macunaíma, malandro e anti-herói, baseado menos na técnica ou tática e mais na individualidade ou ginga. “Como tem uma identidade muito grande, as pessoas conseguem colocar rapidamente uma personalidade como herói do time, a exemplo de Romário ou Ronaldinho Gaúcho. Apesar de ter 11 jogadores, não existem, é ele e mais dez”, afirma.
A visibilidade do esporte também contribui para essa diferença. Enquanto o futebol consegue construir uma retroalimentação com vários ídolos esportivos, as outras modalidades sentem maior dificuldade. “Se as pessoas não assistem, não vão considerar aquele jogador excepcional”, conclui.
Formação de ídolos
Marco Bettine desenvolve o mito do herói clássico, que Carl Jung, Edgar Morin e Joseph Campbell definem. Nessas ideias, o ídolo se constrói como na Odisseia: ele atende a um chamado popular, sofre privações e dificuldades, parece que vai perder, mas vence. Quando tudo indica que esse herói vai voltar para casa, ele passa por novas dificuldades, até conseguir superá-las e fechar a sua narrativa.
No Brasil, esses “chamados” da população acontecem majoritariamente no futebol. Ainda assim, o professor aponta uma queda na quantidade de heróis inseridos no esporte, o que gera uma falta de identificação e consequente afastamento do público: “Não tem mais essa figura, um Zico, um Rogério Ceni, um Neto… e isso em todos os grandes times brasileiros”.
Bettine entende que o futebol nacional deve investir na permanência de jogadores, já que a sua transformação em ídolos aumenta o consumo do esporte, inclusive na audiência televisiva e nas mídias secundárias. “Como existem muitos campeonatos no Brasil, a chance desse jogador se transformar em um herói é muito grande.”
Ainda antes de ser herói, um jogador trilha seu caminho como ídolo. O especialista usa como exemplo o Ronaldo Fenômeno, que atingiu esse potencial máximo após o título da Copa do Mundo em 2002, contra a Alemanha: “Ele já era um ídolo, mas o herói é marcado por esse corte fundamental de vitória. O Vinicius Júnior é um ídolo, e vai ser herói quando ganhar uma Copa do Mundo”. Outro ponto que pode definir o status de um jogador é a sua “lealdade” aos clubes: “Se uma pessoa começa a sair muito dos times, como aconteceu com o Neymar, ela começa a ser menos valorizada, e isso dificulta a sua permanência como ídolo ou herói”.
Em outros esportes, essa cobrança de formação de heróis é eximida, como informa o especialista. No futsal, por exemplo, o último grande ídolo foi o Falcão, por ter conseguido se projetar na mídia em um momento histórico. Nos esportes olímpicos, uma medalha transforma o atleta em herói, como a Rebeca Andrade. Porém, a falta de disputas semanais diferenciam essas modalidades do futebol ou mesmo da Fórmula 1, em que as narrativas são semanalmente construídas. “Cria uma áurea no espetáculo esportivo que até uma informação simples se torna algo comunicável e midiático. Isso é muito importante para criar o herói. O problema das outras modalidades não é a capacidade técnica, mas a falta de repetição para que fortaleça essa imagem. Ela vai se apagando no tempo, presa a um ciclo olímpico ou mundial.”
*Texto de Davi Caldas, sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
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