quinta-feira, maio 14, 2026
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Estudos apontam que a doença de Parkinson pode ter origem fora do sistema nervoso – Jornal da USP


Pesquisadores da Universidade de Wuhan, na China, identificam depósitos da proteína alfa-sinucleína nos rins e levantam hipótese sobre o papel do órgão no avanço da doença

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A imagem mostra um modelo de cérebro humano, de cor vermelha intensa, colocado sobre uma superfície iluminada também em tom vermelho vivo. A luz forma um retângulo claro no centro da cena, destacando o cérebro, enquanto o fundo ao redor está em vermelho escuro, quase preto. O contraste entre a área iluminada e as sombras cria um efeito dramático e artístico, chamando a atenção para o cérebro, que está posicionado de forma central e levemente inclinado.
Alfa-sinucleína é considerada a principal responsável por provocar o adoecimento dos neurônios – Foto: Freepik

Cerca de 1% da população mundial acima de 65 anos, o que equivale a cerca de 4 milhões de pessoas no mundo, vive com a doença de Parkinson, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas esses pacientes podem ter, finalmente, uma luz acesa no final do túnel. Tradicionalmente conhecida por afetar o sistema nervoso central e causar comprometimento dos movimentos, a doença ganhou, recentemente, uma nova hipótese onde o processo pode começar.  

Vitor Tumas – Foto: Lattes

Os pesquisadores chineses acreditam que o processo pode começar fora do cérebro e se espalhar até o sistema nervoso central. Essa teoria se conecta ao papel de uma proteína já bem conhecida pelos estudiosos da doença: a alfa-sinucleína. Ela é considerada a principal substância responsável por provocar o adoecimento dos neurônios, levando ao desenvolvimento progressivo de doenças neurodegenerativas, como o Parkinson. O neurologista Vitor Tumas, professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica que “a proteína se acumula dentro das células nervosas, chamadas corpúsculos de Lewy, e pode desencadear o processo degenerativo que leva à morte dos neurônios, e ao aparecimento dos sintomas da doença”.

Estudos em fases iniciais

Durante a investigação, os cientistas chineses identificaram uma quantidade anormal da proteína alfa-sinucleína nos rins de pacientes com doença de Parkinson e outros transtornos neurodegenerativos. O acúmulo era ainda mais evidente em pessoas com insuficiência renal crônica, mesmo entre aquelas que não apresentavam sintomas neurológicos aparentes. A partir dessas observações, os pesquisadores levantaram a hipótese de que os rins poderiam funcionar como ponto de partida para a propagação da proteína, que, em seguida, alcançaria o cérebro por meio das vias nervosas.

De acordo com Tumas, a alfa-sinucleína é uma proteína normalmente presente nos neurônios, especialmente nos terminais sinápticos, onde atua na comunicação entre as células nervosas. No entanto, quando sofre alterações estruturais, torna-se uma proteína “mal dobrada”, com tendência a se agregar e formar depósitos anormais. “Quando a alfa-sinucleína está alterada, ela se torna uma proteína danificada, que chamamos de ‘mal dobrada’ e, devido a isso, ela poderia ser transmitida por vários mecanismos a outros neurônios, inclusive através dos nervos”, explica.

A imagem mostra uma mão humana estendida em direção a uma luz suave e dourada. A iluminação cria um efeito quente e etéreo, com tons que variam entre o marrom e o alaranjado. A mão parece em movimento, pois há várias sobreposições translúcidas dos dedos e da palma, sugerindo tremor, vibração ou deslocamento rápido. O fundo é liso, sem detalhes, reforçando o foco na mão e na sensação de movimento.
Cerca de 1% da população mundial convive com a doença de Parkinson – Foto: PicsbyAnnyk/Pixabay

A ideia de que a alfa-sinucleína “se espalha” entre células nervosas não é nova. “Há muitos anos, foi formulada uma hipótese por patologistas alemães, conhecida como hipótese de Braak, segundo a qual a difusão da alfa-sinucleína poderia ocorrer por duas vias: a olfativa, na qual a substância se depositaria nos receptores do olfato e, por meio do nervo olfatório, chegaria ao sistema nervoso central; e a intestinal, na qual a proteína se acumularia no sistema digestivo e alcançaria o cérebro pelo nervo vago”, explica Tumas.

O novo estudo chinês acrescenta uma terceira possibilidade: a via renal. “Os pesquisadores mostraram que a alfa-sinucleína se acumula nos rins, especialmente em pacientes com insuficiência renal, e sugerem que, a partir daí, a proteína poderia se propagar retrogradamente através dos nervos que inervam o rim, inclusive o nervo vago, até o sistema nervoso central”, completa o neurologista. Essa hipótese amplia a compreensão das possíveis rotas de propagação da doença, embora ainda precise de validação clínica.

Papel dos rins 

Os rins operam como filtros vitais do corpo humano, responsáveis por manter o equilíbrio interno e eliminar substâncias tóxicas do metabolismo. O nefrologista José Abrão Cardeal da Costa, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica que os rins exercem três funções principais: excretora, regulatória e endócrina.  “A função excretora elimina substâncias tóxicas, como ureia, creatinina e resíduos de medicamentos. A regulatória controla o volume e a composição do sangue,  água, eletrólitos e pH. Já a função endócrina produz hormônios, como a eritropoietina (que estimula a produção de hemácias), a renina (que regula a pressão arterial) e ativa a vitamina D, essencial para o metabolismo do cálcio”, detalha.

José Abrão Cardeal da Costa – Foto: Arquivo pessoal

O médico ressalta que o rim saudável depura o sangue, removendo pequenas moléculas potencialmente tóxicas, mas não filtra proteínas estruturais como a alfa-sinucleína. “Quando há doença renal, a depuração do sangue é prejudicada, o que pode favorecer o acúmulo de substâncias anormais, inclusive aquelas que deveriam ser eliminadas”, completa.

A falta de cuidado com os rins compromete a limpeza do organismo, facilitando a propagação de substâncias tóxicas, alerta o especialista. “Qualquer condição que reduza a capacidade do rim de filtrar, reabsorver ou secretar substâncias pode comprometer a depuração da alfa-sinucleína do sangue, como doença renal crônica, injúria renal ou outros fatores que agravam a perda da função depurativa”, destaca Costa.

Possibilidades de prevenção e diagnóstico

Apesar de a hipótese renal ainda estar em fase pré-clínica, já existem métodos capazes de identificar depósitos de alfa-sinucleína em diferentes tecidos. “Hoje se sabe que é possível detectar a deposição de alfa-sinucleína em biópsias de pele, antes mesmo do aparecimento dos sintomas motores da doença de Parkinson”, explica Tumas. 

Segundo o neurologista, isso abre a perspectiva de desenvolver, no futuro, testes específicos que identifiquem a presença da proteína nos rins ou até mesmo em amostras de urina, funcionando como um exame precoce de risco.

Uma forma viável de prevenção é o cuidado contínuo com a saúde renal e o controle de doenças associadas, destaca o professor Costa. “Essa é exatamente a virada conceitual que essa linha de pesquisa provoca. Se os rins participam não só da excreção de toxinas, mas também da limpeza de proteínas neurotóxicas como a alfa-sinucleína, então cuidar dos rins deixa de ser apenas uma questão de evitar a diálise e passa a ser uma estratégia de proteção do cérebro.”

Costa ainda conclui com uma reflexão: “Em outras palavras, um rim saudável ajuda a manter um cérebro saudável. Portanto, beba água com regularidade, mantenha a pressão arterial sob controle, tenha uma alimentação equilibrada rica em frutas e verduras, durma bem para reduzir o estresse, cuide da saúde mental e pratique atividades físicas.”

*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone e Ferraz Junior

 



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