Alicia Kowaltowski defende o acesso aberto a publicações científicas e faz críticas ao modelo hoje existente, o qual impõe barreiras para a divulgação do conhecimento

Especialista da Universidade de São Paulo defende o acesso aberto a publicações científicas, com foco especial na realidade dos pesquisadores em países em desenvolvimento. A professora Alicia Kowaltowski, do Departamento de Bioquímica da USP, pesquisadora e especialista em metabolismo energético, membro da Academia Brasileira de Ciências, participou recentemente do evento da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, a Unesco, que também tratou desse mesmo tema.
“A Assembleia Geral da Unesco tem várias missões e uma das mais importantes é preservar patrimônios humanitários, e eu acredito que não exista um patrimônio mais importante do que o nosso conhecimento científico”, comenta ela. “O acesso aberto a publicações científicas, que é a capacidade de você poder ler publicações sobre novos achados científicos sem ter que pagar, é uma coisa que tem surgido há mais tempo, desde antes da pandemia, e tem crescido bastante nos últimos anos […] entretanto, a maioria dos artigos científicos é publicada por editoras privadas que visam ao lucro, ou seja, são necessárias assinaturas para consumir esse conteúdo. O chamado acesso “aberto”, que existe hoje, é quando os autores têm que pagar taxas para seus projetos serem divulgados pelo mundo, mas isso de forma alguma pode ser considerado aberto, pois existe uma barreira para sua divulgação.”

Possíveis soluções
Para o acesso a pesquisas científicas ser verdadeiramente aberto e igualitário é necessário extinguir as barreiras para suas publicações e leituras. Alicia comenta que a melhor resolução do problema é a divulgação dos artigos através de pré-prints, que são manuscritos científicos ainda não revisados por pares e que são depositados em depositórios públicos. Essa solução também é recomendada por diversas instituições ao redor do mundo, como a Fapesp e a Academia Americana (AAAS).
“Hoje existem depositórios de pré-prints para qualquer grande área. Quando um artigo é depositado como pré-print, enviado para a revista, que realiza a revisão e atualiza o artigo científico final, mesmo que ele esteja publicado numa revista que tem que pagar para ler, a versão final dele também é atualizada e está no depositório para a leitura de todos. Esse é um método mais igualitário para divulgação científica, mas espero que no futuro também possamos superar nossa dependência do mercado editorial.”
Mais desafios
Fora a questão do acesso aberto a publicações, existe o aspecto da ciência aberta, em que os dados podem ou não ser acessados pelas pessoas, mas isso constitui outra discussão complexa. “Atualmente, a abertura da divulgação científica vive um período de transição complicado, pois as editoras perceberam que o modelo de pagamento de taxas para publicações não funcionava, inclusive muitos cientistas não sabiam desse método. Então é recomendado aos cientistas a publicação através de pré-prints, mas eu acredito que ainda ocorrerão muitas mudanças”, finaliza a professora.
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