quinta-feira, maio 14, 2026
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No segundo dia da COP30, a preocupação com um avanço ainda maior do aquecimento do planeta – Jornal da USP


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“Cada fração de grau a mais importa, e muito.” Essa foi a mensagem que fluiu ontem (11) do Pavilhão de Ciências Planetárias da COP30 em Belém, no segundo dia da Conferência sobre Mudanças Climática da ONU. O alerta se refere a uma constatação preocupante, de que o limite de 1,5° de aquecimento do planeta está prestes a ser rompido. Esse é o limite de segurança estabelecido pelo Acordo de Paris e a partir do qual o aquecimento global se torna extremamente perigoso — muito mais ainda do que já é atualmente.

A expectativa é que essa marca seja ultrapassada já nos próximos cinco a dez anos, segundo um grupo internacional de cientistas que foi criado para aconselhar a presidência da COP nas negociações diplomáticas da reunião. O grupo é liderado pelos cientistas Johan Rockström, do Instituto de Potsdam, na Alemanha, e Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da USP.

“O risco é gigantesco, porque toda ciência, há muitas décadas, e eu participei de vários relatórios do IPCC, desde o primeiro, em 1990, e a gente, os cientistas, sempre disseram, não vamos passar de 1,5°, não podemos passar. Se a gente passar de 1,5°, nós vamos disparar um monte do que a gente chama ponto de não retorno”, advertiu Nobre. “Se os oceanos tropicais aquecerem mais de 1,5°, chegarem a 2°, 99% da extinção dos recifes de corais. É uma extinção global. Nós vamos passar do ponto de retorno da Amazônia, nós vamos perder mais de 70% da Amazônia. Tem vários outros pontos de não retorno, então nós não podemos deixar a temperatura passar muito. Ela vai passar por quê? Porque acelerou muito o aquecimento.”

Esse limite de 1,5° já foi ultrapassado em 2024, no ano passado, que foi o ano mais quente já registrado pela ciência. Mas não basta um único ano, é preciso que a temperatura fique acima desse limite na média de um período de dez anos — que é o que os cientistas projetam que vai acontecer nos próximos anos, em função do acúmulo de gases do efeito estufa na atmosfera.

Mesmo que todos os países cumpram os seus compromissos já assumidos dentro do Acordo de Paris, esses compromissos são tão baixos e a quantidade de carbono na atmosfera já é tão alta, que será praticamente impossível manter o aquecimento abaixo de 1,5°.

Reverter o aquecimento tornou-se prioridade

O novo desafio, segundo os pesquisadores, não é mais impedir que se ultrapasse esse limite, mas garantir que o estouro seja o menor possível — idealmente, abaixo de 2° — e que esse aumento seja revertido o mais rápido possível.

Segundo Rockström, cada fração de grau a mais no termômetro significará mais sofrimento para a humanidade: mais tempestades, mais secas, mais inundações, mais ondas de calor, mais deslizamentos, mais doenças e mais tragédias climáticas.

O debate foi mediado pela brasileira Thelma Krug, que é pesquisadora aposentada do Inpe, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e por muitos anos foi vice-presidente do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima. “A gente indo além do 1,5° não é o fim do mundo, mas a gente já pode ter riscos irreversíveis. O que a gente está vendo acontecer na Antártica não é pouca coisa. O que a gente está vendo no aumento do nível do mar por conta desse derretimento já está sendo extremamente sem precedentes, então eu acho que a gente está olhando para essas coisas sem precedentes e dizendo, a gente não pode esperar mais. A gente não pode esperar mais. Essa é a mensagem que a gente quer trazer aqui para esta COP.”

Tudo indica que a mensagem foi assimilada, pelo menos no discurso, pelas lideranças da cúpula climática em Belém — tanto pelo secretário-executivo da Convenção do Clima, Simon Stiell, quanto pelo presidente da COP30, o embaixador André Correa do Lago, que em entrevista fez referência a Carlos Nobre e, replicando Lula, atacou os reacionários. “Primeira vez que tem um pavilhão de ciência na COP, que está sendo coordenado pelo nosso Carlos Nobre, pelo Rockström, que é um dos mais respeitados cientistas estrangeiros, ou seja, Brasil e o mundo juntos, mostrando a ciência. A ciência é absolutamente central. Nós temos que reagir, como disse o presidente, esta COP tem que ser a reação ao reacionarismo, ou seja, temos que ir contra os reacionários, que estão com um discurso que às vezes é atraente, mas que é falso.”

Combustíveis fósseis

Ontem foi o segundo dia da conferência de Belém, que vai até o dia 23, com a participação de 194 países e mais de 40 mil participantes, incluindo diplomatas, cientistas e representantes da sociedade civil, do setor público e privado, reunidos para discutir o enfrentamento da crise climática global.

É a primeira vez, em 30 anos, que uma COP é realizada no âmbito de uma floresta tropical, e é natural que a maior parte das atenções esteja voltada para a Amazônia e para o papel fundamental que a floresta tem para a proteção da biodiversidade e para a estabilidade climática do planeta.

Apesar disso, a pesquisadora Thelma Krug fez um alerta importante: que a COP de Belém não pode perder de vista o tema mais importante do combate ao aquecimento global, que é a redução do uso de combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás natural. “Não adianta só preservar florestas sem cortar combustível fóssil, não adianta, é 80% de combustível fóssil e 20% de contribuição de emissões para a floresta. Ou seja, vamos tratar isso de forma equilibrada? Vamos tratar nas COPs 20% de florestas e 80% de transição energética? É isso que nós estamos precisando. E aqui é o local. Não é o local de falar de floresta. É o local da gente falar que essas florestas não estarão aqui se a gente não tratar a transição energética e o phase out dos combustíveis fósseis. É essa a mensagem.”

Na COP28, em Dubai, após muita discussão e muita pressão da opinião pública, os países concordaram em iniciar  “uma transição para longe dos combustíveis fósseis”, mas até hoje não foi estabelecido nenhum cronograma ou metas específicas para fazer essa transição. O tema não foi retomado na COP29, no Azerbaijão, e até o momento não entrou também na pauta oficial de negociações aqui da COP30, porque tudo na conferência precisa ser decidido por unanimidade, e não houve consenso entre os países para colocar esse item na agenda.


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