Pais transformam a infância dos filhos em conteúdo nas redes sociais; geram risco de privacidade, uso indevido de imagens e até possíveis traumas digitais, alerta colunista
Nesta coluna, o professor Luli Radfahrer volta a abordar um tema bastante atual, o qual pode começar com uma simples pergunta: por que os pais compartilham tudo da vida dos filhos via on-line? A coisa chegou a tal ponto, segundo Radfahrer, que hoje a criança média já aparece em mais de mil fotos antes mesmo de completar 2 anos de idade – “e a gente não está falando daquela foto do bebê na cadeirinha, mas uma documentação completa […] tudo está sendo colocado na mídia social. É uma coisa que nunca existiu antes na história da humanidade, um registro permanente e público da infância, feito sem consentimento e sem saber que tipo de impacto isso vai ter no futuro dela. É uma espécie de experimento social sem precedentes, em que a criança entra sem qualquer ideia de futuras consequências”.
Mas e os pais, o que ganham com isso? “Tem a busca por validação, criar um filho é difícil e receber curtidas, comentários carinhosos, mensagens de apoio dá um conforto imediato. Tem também a ideia da terceirização da memória. Muitos pais realmente confiam mais nas redes sociais do que em uma pasta de fotos locais. E, é claro, as plataformas incentivam, elas mostram memórias, aniversário de publicação, seu ano em fotos, tudo para que a pessoa volte a publicar. Para piorar, o algoritmo recompensa fotos de bebês e crianças pequenas, porque elas geram engajamento. Assim, as pessoas se acostumaram a produzir esse conteúdo, muitas vezes sem perceber que estão transformando a vida da criança numa narrativa pública.”
Segundo o colunista, depois da pandemia, compartilhar virou praticamente parte do comportamento social, a ponto de surgir uma espécie de pressão. “Quando os pais não publicam fotos dos filhos, muitas vezes precisam explicar o porquê.” O problema é que essa prática não está isenta de riscos. “Os riscos são vários. Tem roubo de identidade, porque os dados de uma criança são perfeitos para uma fraude futura, tem o sequestro digital, quando as fotos vão parar numa conta falsa ou até em um contexto criminoso. E tudo isso, infelizmente, é muito mais comum do que se imagina. E é claro que existe também o impacto futuro. Essa criança pode ser julgada, investigada ou até ridicularizada por registros antigos que ela nunca escolheu mostrar. Tudo isso cria uma espécie de trauma digital. Ao transformar a infância em conteúdo, as crianças podem se tornar personagens. Os pais pedem poses, reações exageradas, gravações repetidas e a criança aprende a atuar para a câmara. Coisa que a gente já vê quando a gente pede para alguém sorrir para uma foto e ele vira aquela espécie de múmia congelada sorrindo. Isso é gravíssimo na produção de conteúdo, porque criança não é conteúdo e precisa ser respeitada. Quando ela diz: ‘Não quero foto’ não pode ser ignorada. Porque ensina que o limite pessoal dela não importa. Isso é uma total e completa distorção da ideia de infância.”
Datacracia
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.
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