Por Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

Qual a receita para um desenvolvimento econômico duradouro?
Para a nação moderna, foi e ainda é necessário o desenvolvimento industrial. Assim como no passado a riqueza não podia vir só da agricultura e dos produtos de origem animal, vegetal e mineral, é impossível para uma sociedade viver apenas de serviços, o que não passa de utopia “pós-industrial”. A indústria transforma a natureza e cria novos produtos, agregando-lhes valores reais provindos do trabalho humano. Quando funciona assim, a economia tem base física, permanecendo livre de valores apenas fictícios e especulativos.
A indústria floresce pela agregação dos esforços de inventores, empresários e operários. Esses agentes fornecem as condições necessárias, mas não suficientes para uma industrialização bem-sucedida, pois falta uma política dirigida para a ciência e tecnologia, que trazem inovações de interesse social. Esse conjunto teve sucesso nos casos mais recentes de países como o Japão, Coreia do Sul, e está por trás do salto gigantesco da China; funcionou também satisfatoriamente na Europa e nos EUA no século 19.
É comum se referir a essa última etapa mencionada como uma “revolução industrial”, o que é, todavia, uma expressão pouco exata, posto que o avanço da industrialização já se fazia notar gradualmente desde a Idade Média na Europa e em partes da Ásia. Outro equívoco é atribuir essa transformação exclusivamente ao uso da máquina a vapor, mesmo que a difusão desta invenção em particular tenha contribuído significativamente para a industrialização. Na verdade, muitas importantes fábricas de tecidos, inclusive na Inglaterra, não fizeram uso da máquina a vapor e continuaram nesse período a usar como força motriz para seus teares algo bem estabelecido há séculos: a energia hidráulica provinda de rodas d’água.
Quanto à política desenvolvimentista, vários governos europeus encorajaram a industrialização removendo barreiras alfandegárias e pedágios, criaram bancos estatais para financiar a indústria e a construção de obras públicas com ênfase em transportes (portos e ferrovias, intervindo para a regulamentação de preços dos fretes), impuseram impostos e subsídios de proteção à indústria nacional e deram proteção temporária de inventos por meio de patentes. A vitrine da indústria foram as exposições industriais e – muito importante – o Estado se preocupou em aumentar a oferta de ensino, inclusive por meio da fundação de universidades e escolas técnicas, abertas também para operários. Ocorreu assim uma forte institucionalização da ciência que abriu caminho para uma cooperação de pesquisas acadêmicas com a indústria.
Vários desses elementos estavam presentes na Alemanha nesse período, apesar de, no início do século 19, não parecer um país propício à industrialização. O governo prussiano, que mais tarde forjaria a nação alemã, foi pioneiro ao apoiar Wilhem von Humboldt para criar em 1810 uma universidade pública e gratuita em Berlim. As inúmeras tarifas internas foram eliminadas em 1834 com a União Alfandegária e, com a ajuda do banco estatal prussiano, fez-se a rápida expansão da rede ferroviária e de canais de transporte fluvial, em conjunto com linhas telegráficas.
A conjunção de fatores citada acima pode ser ilustrada em paralelo pela história da conhecida Casa Siemens, formada por uma família de inventores que foram ao mesmo tempo empresários. O alemão Ernst Werner von Siemens nasceu perto de Hanover, em 1816, e se distinguiria como inventor e, especialmente, como aperfeiçoador de invenções feitas por outros, abrindo caminho para sua aplicação prática e difusão.
Foi marcante a contribuição de Werner para que a energia elétrica se impusesse na sociedade, por meio de geradores e motores, substituindo gradualmente as máquinas a vapor, abrindo, assim, uma nova fase da Revolução Industrial. Suas invenções nesse setor foram uma decorrência da descoberta da interação entre eletricidade e magnetismo (ou eletromagnetismo), resultado das experiências fundamentais do físico dinamarquês Hans Christian Oersted (1777-1851), em 1817, comprovando que a eletricidade em movimento (corrente elétrica) produz magnetismo, e do britânico Michael Faraday (1791-1867), em 1831, de que o magnetismo em movimento produz eletricidade.
Aos 17 anos, Werner entrou para a Escola de Artilharia e Engenharia do exército prussiano, em Berlim, obtendo formação abrangente em ciências naturais. Lá, enquanto cumpria uma prisão disciplinar, montou em sua cela um laboratório de química e fez experiências que levaram à sua primeira invenção em 1842: um processo de galvanização eletrolítica, aplicado especialmente para banhos de prata e ouro.
A nomeação de Werner para as oficinas de artilharia em Berlim lhe deu oportunidade de fazer novas pesquisas, interessando-se pelas aplicações do telégrafo. Começou, então, com seu sócio e colaborador, o mecânico alemão Johann Halske (1814-1890), uma fábrica de telégrafos naquela cidade. Renunciou ao serviço público em 1849, e a firma prosperou, conseguindo contratos para instalar linhas telegráficas em diversas regiões da Alemanha e da Rússia. Juntamente com seu irmão caçula, Karl Siemens (1829-1906), Werner abriu fábricas subsidiárias em Londres, São Petersburgo, Viena e Paris, e teve sucesso ao instalar cabos telegráficos submarinos através do Mediterrâneo e da Europa à Índia.
A ida para Londres de Carl Wilhelm Siemens (1823-1883) e Friedrich Siemens (1826-1904) – dois outros irmãos de Werner – abriu caminho para a maior expansão dos negócios. Wilhelm investiu na siderurgia e inventou na década de 1850 o bem-sucedido conversor Siemens (que opera com soleira aberta e regenera calor, economizando combustível), para fabricação de aço, além de persistir comercializando novas invenções de Werner, como um regulador cronométrico para máquinas a vapor, isolantes para cabos elétricos, equipamentos de segurança para o tráfego de trens (“sinalização ferroviária”) e um elevador movido a eletricidade. A empresa Siemens londrina fazia testes de cabos elétricos e produzia diversos instrumentos de medição elétrica – em 1874, instalou o cabo telegráfico submarino entre o Rio de Janeiro e Montevidéu. Entre os empreendimentos de Wilhelm, contam-se aperfeiçoamentos na iluminação por meio de lâmpadas de arco voltaico e as primeiras locomotivas elétricas, demonstradas na Exposição de Berlim de 1879.
Em 1866, Werner inventou um dínamo, tipo de gerador elétrico autoexcitado que podia dar partida com o magnetismo residual de seu forte eletroímã. O dínamo é um gerador que produz corrente contínua, e foi o primeiro equipamento capaz de fornecer eletricidade na quantidade exigida para uso industrial e, como na maioria das invenções, não há um único inventor a quem se possa dar plena paternidade por sua descoberta. O dínamo se desenvolveu a partir das ideias de Faraday e outros, e o equipamento citado foi construído de forma independente por Werner Siemens e pelos britânicos Charles Wheatstone (1802-1875) e Alfred Varley (1832-1921). Werner teve o mérito de associar o invento à produção industrial em larga escala, e os geradores e motores da marca Siemens se espalharam pelo mundo, sendo largamente comercializados – inclusive no Brasil.
1866 foi também o ano em que Werner Siemens se tornou deputado prussiano, alinhado com a social-democracia, e votou contra os aumentos do orçamento militar, que, no entanto, ocorreram e levaram à guerra contra a França em 1870, vencida pela Prússia. Deve-se mencionar também que Werner instituiu de forma pioneira a participação nos lucros para os operários de suas fábricas, atitude que seria, mais tarde, ampliada com a oferta de ações da empresa para os seus funcionários. Em 1872, instituiu um fundo de pensão para aposentadorias, viúvas e órfãos dos empregados. Outra medida social importante sua foi a introdução de uma semana de trabalho de 54 horas – à época, o usual eram 72 horas.
De maneira geral, Werner manteve uma visão peculiar sobre a ciência, acreditando que sua aplicação não devia resultar em riquezas detidas apenas por um punhado de capitalistas sustentados por uma multidão de trabalhadores miseráveis. Para ele, numa visão certamente patronal, mas ainda assim progressista, os trabalhadores também deveriam receber benefícios econômicos gerados pela extensão dos conhecimentos científicos e do progresso material.
Do ponto de vista empresarial, considera-se importante sua campanha em prol da aprovação de uma lei de patentes na Alemanha em 1877, pois se argumentava que, até então, muitos inventores alemães preferiam patentear suas descobertas e transformá-las em produtos no exterior devido à falta de proteção ao invento naquele país, o que valia às manufaturas alemãs a fama de produtos ruins.
As empresas da Casa Siemens logo se tornaram um gigantesco conglomerado mundial, atuando nos campos de produção e uso da energia elétrica, das telecomunicações, de eletrodomésticos e equipamentos para medicina, rivalizando nesse aspecto com a General Electric, dos EUA.
Em 1885, Werner conseguiu implantar em Berlim o atualmente denominado PTB (Physikalisch-Technische Bundesanstalt), conhecido instituto de metrologia e pesquisas tecnológicas. Após ser agraciado em 1888 com um título de nobreza, Werner morreu naquela cidade em 1892. A unidade de condutância elétrica do Sistema Internacional de Medidas é denominada “siemens” em sua homenagem.
Se formos pensar em termos de história brasileira, a pergunta a fazer é se reuníamos, naquele mesmo período, as condições para o desenvolvimento industrial. Sabemos que não, mas se formos olhar, não foi por falta de todos os fatores. Conquanto boa parte da elite defendesse o contrário, se apegando a uma suposta “vocação” agrária do País e à teoria oportunista de que o Brasil não tinha vantagens competitivas em relação aos países já industrializados, havia vozes em favor da industrialização, inclusive de empresários.
Não está ainda escrita a história de nossos inventores, mas sabemos que brasileiros criaram durante o século 19 máquinas de beneficiamento de café e outros implementos agrícolas, e até mesmo invenções de vanguarda, como o telégrafo sem fio. O que faltou basicamente foram as ações políticas de apoio, bastante ausentes do governo imperial e do republicano que se seguiu.
Ainda hoje nossos cientistas não têm o amplo reconhecimento público que lhes é devido. As receitas para o desenvolvimento industrial existem, mas nos falta um projeto nacional que inclua de forma permanente o apoio à educação e à ciência.
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