Chamado AI4BIO Network, grupo foi criado para promover projetos que unem dados genômicos, inteligência artificial e pesquisa translacional para a saúde humana
Por Fabiana Mariz

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A rede global sobre inteligência artificial na saúde (AI4BIO Network) foi lançada durante o AI4BIO Summit, evento que reuniu líderes acadêmicos e científicos de dez países do Sul Global entre os dias 6 e 7 de novembro em Goiânia. O encontro teve como objetivo fortalecer a colaboração entre instituições do Sul Global, promovendo projetos que unem dados genômicos, inteligência artificial e pesquisa translacional em benefício da saúde humana. A reunião explorou aspectos éticos, científicos e desafios da sociedade, além de oportunidades resultantes do uso dessas tecnologias emergentes na saúde e na pesquisa biológica.
Helder Nakaya, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP, um dos organizadores do evento, disse ao Jornal da USP que o intuito era encontrar as pessoas que já produzem dados, mas que não se conheciam pessoalmente: “Nós já sabemos como fazer, como guardar os dados, como trocar com segurança as informações. O que faltava era o porquê. Por que eu posso colaborar com eles”.

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Vários temas foram abordados, como diagnóstico e precisão de câncer, vigilância epidemiológica com detecção precoce de doenças emergentes, medicina e precisão e saúde populacional e uso ético e sustentável de IA na saúde.
Mayana Zatz, geneticista e professora do Instituto de Biociências (IB) da USP e diretora do Centro de Estudos sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) da USP, foi uma das palestrantes. Em sua participação, Mayana falou sobre os trabalhos desenvolvidos no CEGH-CEL em estudos genômicos iniciados em 2008, antes do interesse internacional por projetos da área.
“[Naquela época] Começamos o projeto 80+ com objetivo de ter um banco de dados da população brasileira idosa. A ideia foi focar nos mais idosos porque, quando sequenciamos o genoma de um jovem, não dá para saber se ele tem risco desenvolver uma doença de início tardio, como hipertensão ou Parkinson, por exemplo”, explica a geneticista.
Outro tópico destacado por Mayana foi a colaboração entre o CEGH-CEL e o projeto Sabe – saúde, bem-estar e envelhecimento. Coordenado pelas professoras Maria Lúcia Lebrão e Ieda Duarte, ambas da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, o Sabe investigou as condições de vida e saúde dos idosos do Município de São Paulo. Com esse estudo foi possível sequenciar o genoma de 1.170 pessoas e descobrir 2 milhões de variantes novas, destacando a importância de investigar a população brasileira miscigenada. Com os dados os cientistas criaram o maior banco genômico de idosos da América Latina.

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Em seguida, Mayana falou sobre o projeto de centenários, cujo objetivo é identificar agentes de resiliência. “Esse é um tema de grande interesse, porque a população mundial está envelhecendo e queremos envelhecer bem.”
Ética em pauta
Durante a palestra Avanços da genética e seus impactos na contemporaneidade, realizada no curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, Mayana repercutiu a criação da primeira clínica médica do mundo operada por inteligência artificial. Situada na Arábia Saudita, o projeto, ainda em fase de experimentação, oferece serviços gratuitos focados em queixas respiratórias e funciona da seguinte maneira: o paciente descreve, por meio de um tablet, quais são os seus sintomas, e anexa os seus exames, como dosagens sanguíneas e exame de imagens (solicitados por médicos humanos), para um médico de IA chamado Dr. Hua. Terminada a consulta, a ferramenta sugere um diagnóstico e um plano de tratamento, que é revisado e assinado por um médico humano. O plano é expandir para 50 o número de patologias atendidas.
Glauco Arbix, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, levantou alguns pontos de atenção sobre o uso da inteligência artificial. Em palestra realizada no curso Divulgação Científica para Comunicadores de Jornalistas ele disse que, ao mesmo tempo em que a IA traz a promessa de um mundo melhor – de uma economia melhor e de uma atividade profissional melhor -, ela enfrenta problemas sérios no campo da ética, de tendência e de transparência que os modelos mais recentes ainda não conseguem resolver. “Ninguém sabe para onde vai”, afirma o professor.

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Já Mayana pontuou que a IA poderá ser mais eficiente que o médico, por exemplo. “A tendência hoje dos médicos não é o de examinar os pacientes, mas sim de pedir uma série de exames que possam subsidiar o diagnóstico. E nesse sentido […] a IA tem a capacidade de armazenar e conectar, correlacionar uma quantidade de informações muito maior do que o cérebro humano.”
E continuou: “Na minha opinião, os médicos deverão aprender a usar a IA a seu favor: examinar primeiramente o paciente e perguntar quais são os seus sintomas. Depois, consultar a IA a respeito de que exames deveriam ser solicitados, se a IA já havia se deparado com um caso semelhante e qual foi o desfecho. A IA, então, poderia sugerir novas abordagens terapêuticas e assim por diante”, conclui.
Helder Nakaya diz que, durante o encontro em Goiânia, os participantes discutiram não só maneiras de garantir a anonimização e a privacidade dos pacientes, mas também como garantir que a IA não seja mal utilizada por um segurador para negar um cuidado ao paciente. “Temos que pensar em cuidados éticos e de soberania nacional, que são muito importantes.”
A próxima reunião do AI4BIO Summit está prevista para 2026 em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
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