quinta-feira, maio 14, 2026
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Do laboratório ao leitor, IA acelera a circulação do conhecimento científico – Jornal da USP


Inteligência artificial redefine os modos de comunicar e produzir ciência, reacendendo o debate e inaugurando um novo giro na Espiral da Cultura Científica

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Foto com efeitos com cinco pessoas caminhando e olhando ou falando ao celular
Mudanças na forma como o conhecimento chega às pessoas já está acontecendo – Foto: Freepik

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O avanço da inteligência artificial (IA) está remodelando os modos de produção e comunicação do conhecimento científico. À luz do pensamento de Carlos Vogt, o fenômeno reconfigura a relação entre ciência e cultura, núcleo de sua teoria.

Para Vogt, a ciência não é uma ilha: ela só existe plenamente quando se comunica. E, ao se comunicar, cria uma rede complexa de sentido baseada em oposições que se complementam. Há mais de duas décadas o linguista, poeta e Professor Emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) propôs um modelo que se tornou referência ao representar a dinâmica da relação entre os fatos e atividades intrínsecos à cultura científica, a Espiral da Cultura Científica.

Carlos Alberto Vogt – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

A espiral foi tema da aula inaugural do curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, organizado pela Escola de Comunicações e Artes (ECA), Instituto de Estudos Avançados (IEA) e Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP.

Essa metáfora ilustra como o conhecimento se move pela sociedade – gerando práticas restritas e discursos codificados, próprios da produção científica, enquanto maximiza o espaço em direção à apropriação da própria ciência pela audiência; mas, em um mundo permeado por IA, há mudanças nos próprios paradigmas científicos que podem levar essa espiral a girar mais rápido.

“Não ache que vai acontecer: já está acontecendo”, afirma o professor em entrevista exclusiva. “Cada vez mais você tem a possibilidade de fazer uma leitura do conjunto de descobertas, desenvolvimentos, artigos científicos, e, a partir disso, ir formulando de maneira lógica propostas científicas que serão descobertas também, porque ainda desconhecidas, mas que não necessariamente se baseiam na metodologia do experimentalismo clássico do século 17. Isso é uma grande mudança”, reflete.

Espiral da Cultura Científica

Em seu artigo seminal, A Espiral da Cultura Científica e o Bem-Estar Cultural, Carlos Vogt destaca o potencial da ciência em gerar contribuições sociais e tecnológicas, seja na melhoria da qualidade de vida, seja em forma de inovações. E essas transformações práticas para a sociedade acabam por redefinir a própria cultura. 

Durante todo o processo, a imagem de uma espiral de crescimento reforça a necessidade da circulação da comunicação “para que a ciência tenha uma concretude do ponto de vista da sua realidade, da sua materialidade social”, afirmam Vogt e Ana Paula Morales no livro O Discurso dos Indicadores de C&T e de Percepção de C&T.

A espiral apresenta quatro quadrantes — produção e difusão científica, ensino de ciência, ensino para ciência e divulgação científica — que formam um processo contínuo de geração, adaptação e apropriação do conhecimento.

Espiral da Cultura Científica apresenta a dinâmica das relações entre ciência e cultura. À direita, representação da relação entre cultura, ciência e cultura científica no triângulo das oposições, considerando a comunicação e a ciência como elementos transformadores – Imagem: Fundação Conrado Wessel / Com Ciência

 

Uma nova racionalidade representada

A teoria de Vogt, no entanto, não se limita à metáfora da espiral. Em diálogo com Lévi-Strauss e com o lógico Robert Blanché, ele propõe também o Triângulo da Cultura Científica, modelo que busca resolver a oposição tradicional entre ciência e cultura. Nos vértices estão três posições lógicas contrárias: ciência (proposição universal Toda atividade científica está inserida na cultura), cultura (Nenhuma atividade científica está inserida na cultura) e cultura científica (Alguma atividade científica está/não está inserida na cultura), criando uma dinâmica de tensões em que o conhecimento e a comunicação desempenham um papel conjuntivo.

“Eu adotei a ideia de que a cultura científica é a proposição que engloba ciência e cultura. E que a oposição é fundamental, ou seja, em uma dinâmica dialética em que um termo só é definido relativamente ao outro”, explica na entrevista.

Neste modelo, Vogt dá protagonismo a um elemento deslocado pela “correnteza” do sistema de quadrantes: o público que “não participa do processo científico do ponto de vista técnico”, mas que realiza a cultura mediada pela ciência por meio da divulgação científica.

Segundo Vogt, o triângulo não se coloca como alternativa à dinâmica representada pela espiral, mas como um princípio de explicação racional. “Todo o conceito está baseado nesta ideia de que a comunicação da ciência é a coisa fundamental”, reforça.

É nesse ponto — a comunicação — que a IA exerce impacto mais imediato. Ferramentas capazes de traduzir, resumir e reorganizar artigos acadêmicos criam, segundo Vogt, “uma forma de comunicação que vai direto do artigo para o leitor não especializado”.

Apesar da revolução tecnológica, Vogt acredita que a IA não deve anular a dinâmica da espiral. A grande pergunta, para ele, continua sendo “como a ciência pode efetivamente contribuir para oferecer soluções a problemas reais”.

Seu pensamento formulou ainda o conceito de Bem-Estar Cultural, “o conforto crítico da inquietude gerada pela provocação sistemática do conhecimento”, afirmou o professor na conferência de abertura do curso Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, promovido pela USP para cerca de 200 profissionais brasileiros.

Diante desse cenário, Vogt se define como um “cético crítico” ou um “otimista desconfiado”. A ferramenta mudou, mas a necessidade de uma sociedade crítica e culturalmente engajada com a ciência nunca foi tão urgente.



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