Posicionamento ecoa cobrança de cientistas por metas claras e imediatas para cortar emissões e evitar o agravamento da crise climática

Por Herton Escobar, enviado especial do Jornal da USP a Belém (PA)
“A COP30 tem uma escolha a fazer: proteger as pessoas e a vida ou proteger a indústria de combustíveis fósseis”. Essa foi a mensagem que um grupo de cientistas entregou ontem para lideranças da conferência do clima em Belém, na esperança de que o encontro produza alguma decisão concreta no sentido de reduzir o uso de combustíveis fósseis — que são responsáveis por 80% das emissões de gases causadores do aquecimento global.
A mensagem era assinada por sete cientistas, incluindo os professores Paulo Artaxo e Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo. Nobre disse que é preciso cessar imediatamente a abertura de novos poços de petróleo e desenvolver um roadmap — ou mapa do caminho — que leve o mundo o quanto antes para longe dos combustíveis fósseis.
A presidência brasileira da COP 30 apresentou na terça-feira o rascunho de uma resolução sugerindo a realização de reuniões ministeriais para discutir uma redução gradual da dependência global de combustíveis fósseis, mas Nobre e os outros cientistas disseram que a COP precisa entregar bem mais do que isso. “O roadmap precisa ser muito ambicioso. Ele não pode ser absolutamente genérico, sem metas muito avançadas. Nós gostaríamos que essa COP fosse tão importante quanto o Acordo de Paris e a COP26 foram, quanto os países todos se comprometeram a reduzir as emissões e também buscar a adaptabilidade de bilhões de pessoas. Vamos torcer que o roadmap, seja também muito mais do que apareceu até agora.”
A pesquisadora Thelma Krug, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, também fez um apelo por mais ambição; tanto pelo lado da adaptação às mudanças climáticas que já estão em curso quanto da mitigação — que é a redução das emissões de gases do efeito estufa, necessária para evitar que a situação se agrave ainda mais. “Adaptação e mitigação não estão sendo suficientes. A ambição que a gente precisa ter para mitigação é extraordinária e a gente acredita que essa própria proximidade de nós estarmos excedendo o 1,5 trará a consideração de levar a ciência mais a sério.”
Uma das principais metas do Acordo de Paris, firmado na COP de 2015, em Paris, é limitar o aumento da temperatura do planeta a 1,5 grau. Segundo os cientistas, isso já não é mais possível no curto prazo, mas é preciso continuar trabalhando com essa meta para evitar que a temperatura suba muito mais do que isso, e depois tentar trazê-la se volta para abaixo de 1,5.

O impasse político que ameaça o desfecho da COP
O plano dos cientistas era entregar cópias da carta às delegações e ao presidente Lula, que esteve na COP novamente ontem. Foi justamente dele que partiu a pressão política para que o debate sobre “o fim da dependência” dos combustíveis fósseis entrasse na pauta da reunião. apesar de seu governo apoiar a abertura de novas frentes de exploração petrolífera na foz do Amazonas
Lula se encontrou com as delegações diplomáticas de diversos países, e também com representantes da sociedade civil, da indústrias, de governos subnacionais e de povos tradicionais da Amazônia. Em um pronunciamento público no início da noite, o presidente disse que a mudança climática não é mais um questão de cientistas ou ambientalistas, mas um problema real que “coloca em risco a humanidade”.
Ele cobrou apoio financeiro dos países ricos e da indústria para a adaptação climática dos países pobres, e disse que é preciso reduzir as emissões de gases do efeito estufa. “E é por isso que nós colocamos a questão do mapa do caminho. Olha, porque precisa a gente mostrar para a sociedade que nós queremos, sem impor nada a ninguém, sem determinar o prazo, que cada país seja dono de determinar as coisas que ele pode fazer dentro do seu tempo, dentro das suas possibilidades. Mas que nós estamos falando sério. É preciso que a gente diminua a emissão de gás de efeito estufa.
E se o combustível fóssil é uma coisa que emite muito gases, nós precisamos começar a pensar como viver sem combustível fóssil e construir a forma de como viver.”
O tempo para entregar soluções políticas está acabando. A COP termina amanhã, 21 de novembro, com a realização de uma reunião plenária em que todos os documentos negociados ao longo dos últimos dez dias terão que ser aprovados por consenso por todas as partes signatárias da Convenção do Clima da ONU — que são 197 países, mais a União Europeia. É comum essas plenárias finais se estenderem madrugada adentro, com a realização de conversas paralelas para tentar resolver desavenças entre os países. Os textos podem ser modificados diversas vezes, ou até mesmo rejeitados, se não for possível chegar a um consenso. A agenda é longa e cheia de temas complexos, que geram divergências entre os países. Por exemplo, a questão do financiamento de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, dos critérios para avaliação do cumprimento de compromissos nacionais, das metas de adaptação à crise climática e da imposição de barreiras comerciais com base em justificativas climáticas.
Ainda que todas essas e outras questões sejam bem encaminhadas pela COP de Belém, a falta de um mandato claro para a redução do uso de combustíveis fósseis poderá deixar um sentimento de frustração no ar, segundo Ilan Zugman, diretor da organização não-governamental 350 na América Latina e Caribe. “Seria uma frustração muito grande, porque basicamente a gente só faz as COPs por causa dos combustíveis fósseis, que são os maiores causadores da crise climática, são mais de 80% das emissões a nível global vêm da queima desses combustíveis fósseis, do petróleo, do gás e do carvão. Então uma COP sair sem realmente mencionar a necessidade de a gente reduzir esse uso urgentemente, é uma COP que não vai ter um resultado suficiente para fazer frente ao tamanho da crise que a gente está”, avaliou.
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