Uso do dispositivo preocupa médicos e já foi proibido pela Anvisa devido à falta de comprovação científica
Por Vitória Gomes*

A proliferação de “tratamentos milagrosos” para doenças crônicas, como o diabetes, tem encontrado terreno fértil nas redes sociais. A mais recente promessa é um medidor de glicose em formato de anel, que garante medir os níveis de açúcar no sangue de maneira indolor e sem a necessidade do tradicional furo no dedo.
O avanço desse tipo de propaganda tem acendido um sinal de alerta entre especialistas. A endocrinologista e metabologista Lívia Mara Mermejo, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, considera a situação preocupante. “Não existem respostas mágicas. O uso desses medidores pode levar a erros na administração da insulina, com risco de hipo ou hiperglicemia e até de cetoacidose diabética, condição grave provocada pela falta de insulina e pelo excesso de glicose no sangue”, alerta.
Comercialização proibida
A falta de comprovação científica também levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a se manifestar. O órgão emitiu um comunicado proibindo a comercialização dos anéis medidores de glicose, alertando que o produto não possui evidências que sustentem seu uso. Segundo a especialista, para que qualquer dispositivo seja considerado eficaz é indispensável que passe por rigorosos testes científicos. “São necessários estudos clínicos controlados, análises laboratoriais e resultados publicados em revistas científicas que comprovem a eficácia do dispositivo. Sem esse processo de validação, qualquer alegação de benefício e aplicabilidade não tem fundamento”, ressalta.

Mesmo após a proibição da Anvisa, anúncios com promessas fantasiosas continuam circulando nas redes sociais. Para atrair a atenção do público, os fabricantes recorrem a estratégias de marketing que envolvem imagens de personalidades digitais e celebridades. “A presença de influenciadores cria uma sensação de confiança e proximidade, tornando os pacientes mais vulneráveis, especialmente os mais jovens ou recém-diagnosticados. O apelo de evitar picadas pode levar a um atraso no tratamento e à piora da doença”, alerta Livia.
Diante do aumento de propagandas enganosas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou uma lista oficial com os dispositivos cuja comercialização foi vetada. O órgão reforça que esses produtos não possuem qualquer comprovação científica de eficácia, e que sua venda representa risco à saúde pública.
Tecnologias aprovadas e seguras
A professora destaca que o tratamento seguro da diabetes depende exclusivamente de métodos validados pela Anvisa. “Os exames laboratoriais, feitos a partir de amostras de sangue coletadas da veia do braço, os glicosímetros capilares (aparelhos que medem a glicose a partir de uma gota obtida de um furo no dedo) e os sistemas de monitoramento contínuo de glicose (sensores aplicados de forma subcutânea na pele, capaz de medir a glicose do fluido intersticial – líquido entre as células – e posteriormente enviando o resultado para um aplicativo ou computador), continuam sendo as ferramentas mais confiáveis para o controle da glicemia”, explica. De acordo com ela, esses métodos contam com ampla base científica e garantem a aferição precisa dos níveis de glicose no sangue, o que é essencial para o manejo adequado da doença.
Para não cair em falsas promessas a recomendação é simples: duvidar do que parece ser fácil demais. “Desconfie sempre de produtos que prometem resultados imediatos e sem esforço”, orienta a médica. “A melhor estratégia continua sendo o acesso à informação de qualidade, o acompanhamento com médico e demais profissionais de saúde e o tratamento baseado em evidências científicas.”
*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Rose Talamone
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